Crônica de uma morte injuriosa: Ford Pinto, o memorando e Grimshaw
Processos e documentos duvidosos mancharam o pequeno Ford

Se anteriormente a Ford colheu os frutos das acusações contra o Chevrolet Corvair com as crescentes vendas do Mustang, agora era a hora dela ser prejudicada pelo perjúrio. Mas, mais uma vez, vamos entender o contexto e o modelo, para depois chegarmos à novela mexicana que nos espera.

A Ford optou, inicialmente, por importar o europeu Ford Cortina para os EUA. Entretanto, os custos de importação não eram exatamente os mais favoráveis para o contra-ataque yankee. Desta maneira, a Ford pensou tal qual a Chevrolet no projeto do Corvair: “Se não podemos ir contra eles, que tal irmos tal qual?”.



Desta forma, após curtos 22 meses de desenvolvimento, foi apresentado no dia 11 de setembro de 1970 (dia caótico para os norte-americanos, definitivamente) o Ford...Pinto. Sim, se você sorriu mesmo que com o canto da boca, você estacionou sua maturidade na sétima série. Pinto é uma referência aos cavalos com manchas brancas, que abundavam nos campos americanos. E também seguia a temática rural-bovino-equina da Ford para nomear seus modelos naquela época, como Mustang, Bronco, Maverick, Corcel, EcoSport Pampa, et cetera. Mas, questões fálico-etimológicas à parte, embora o AMC Gremlin tivesse sido apresentado seis meses antes, o Pinto foi apresentado exatamente um dia após o Chevrolet Vega, com quem digladiaria até o fim de sua vida. Seu preço inicial de venda era de US$ 1.850 tal qual o desejado por Lee Iacocca.

O AMC não foi seu maior concorrente por se basear principalmente em motores de seis cilindros e V8 e, principalmente, por ser MUITO feio. Mas muito, muito mesmo. Como se diz aqui na roça, tão feio quanto uma batida de FêNêMê com banda de música. Logo, além dos japoneses supracitados, caberia ao...Pinto combater o novo compacto da marca do bow-tie. O novo Ford não era nenhuma sumidade em beleza, mas correspondia às linhas habituais aos compactos mundiais do início dos anos 1970. Traços do Maverick são facilmente identificáveis nele, diga-se de passagem. Desta forma, o Pinto foi fabricado até 1980, com um ligeiro facelift em 1979.
Com motores de 1,6, 2,0 e 2,3 litros de quatro cilindros em linha (o de maior cilindrada é velho conhecido nosso!), desempenho não era seu forte. Nem mesmo a introdução de um V6 de 2,8 litros de origem européia (sim, aquele que surgiu com 2,0 litros e chegou aos 4,0 litros anos depois) foi suficiente para deixá-lo menos letárgico. Quanto à carroceria, com o tempo surgiram versões perua, van (com a curiosa versão Cruising Wagon) e com um grande vidro que se abria na traseira como um hatch, o Pinto Runabout, que também era dotado de bancos traseiros escamoteáveis, dispondo de grande área útil para o transporte de cargas maiores. Seguindo a tradição de se fazer modelos iguais com o mínimo de diferença, a finada Mercury apresentou sua versão do Pinto chamada Bobcat, ofertado entre 1974 (75 nos EUA) e 1980, seja com carroceria fastback ou perua.


A coisa começou a pegar fogo com uma publicação na revista Mother Jones em 1977. O artigo dizia que a Ford conhecia esta falha de projeto, mas não estava disposta a pagar por sua correção. Para isto, ela tinha conhecimento de que seria mais barato pagar indenizações em eventuais processos judiciais. A revista obteve um memorando interno do fabricante, dotado de uma análise de custo x benefício, que teria sido utilizada pela Ford, de acordo com a publicação, para comparar o custo dos reparos (estimado em US$ 11,00 por carro) com o custo de indenizações para reparar eventuais mortes, lesões e danos materiais de veículos. Este documento ficou conhecido como o Memorando Ford Pinto.

Entretanto, veio à tona o caso Grimshaw vs. Ford Motor Company para bagunçar ainda mais o coreto. Um acidente ocorrido em 1972, na Califórnia, com um Ford Pinto parado em uma rodovia quando foi atingido na traseira por um Ford Galaxie. A motorista, Lilly Gray, sofreu queimaduras graves por todo o corpo, resultando em sua morte por insuficiência cardíaca. Já o passageiro Richard Grimshaw, à época com 13 anos de idade, também foi severamente atingido pelo fogo, sendo desfigurado permanentemente por queimaduras em todo o corpo, a despeito de um imenso número de cirurgias corretivas.

Também teria ficado evidente que o espaço para absorção de impactos entre o pára-choques e o tanque, de apenas 10 polegadas (ou 25 centímetros), era menor que qualquer carro americano contemporâneo ou do que qualquer outro Ford compacto vendido pelo mundo, que também contavam com reforços estruturais na seção posterior e que se encontrava ausente no Pinto. Seus concorrentes japoneses colocavam o tanque sobre o eixo, tornando-o mais seguro. Fechando o circo dos horrores, alegava-se que uma flange exposta e um conjunto de parafusos, alinhados por sua cabeça na carcaça do diferencial, eram suficientes para perfurar o tanque.

Vários protótipos da Ford foram testados, além de dois Pintos de produção, para determinar, entre outras coisas, a integridade do sistema de combustível em impactos traseiros. Os testes de colisão provaram que o Pinto não poderia atender a uma proposta de regulamento federal que exigia que, para todos os veículos fabricados em 1972, fossem capazes de suportar um impacto em uma barreira fixa na velocidade de 20 milhas por hora sem derramamento de combustível significativa. Mas note-se: era uma proposta à época citada, e não uma lei promulgada.
Segundo estudos que embasaram o caso, equipar o Pinto com uma estrutura reforçada na traseira (ao custo de US$ 15,30 dólares por carro), além adotar um eixo traseiro com desenho menos intrusivo (US$ 2,10), melhorar os pára-choques (US$ 2,60) e adotar um espaço adicional um 8 polegadas para absorção de impactos (U$ 6,40) teria tornando o tanque de combustível do carro seguro em impactos traseiros, sendo atingido por um carro do tamanho de um Galaxie, em impactos na casa dos 34 a 38 MPH. Adicionando uma bexiga (U$ 5,25) ou a configuração de tanque interno a outro tanque (US$ 5,79) teria feito a Pinto seguro em um impacto traseiro entre 40-45 MPH. Por fim, colocar o tanque sobre o eixo traseiro US$ 9,95) teria feito o Pinto seguro em acidentes acima das 50 MPH.

Mas, lembre-se novamente: a lei federal de 1972 não passou de um estudo! Logo, a Ford não estava fora da lei no que tange à resistência dos impactos traseiros. Por fim, a corte deu ganhou de causa para os acidentados, e a Ford foi obrigada, em Maio de 1981, a pagar 128 milhões de dólares (!) aos acidentados e para pagar as custas processuais. Não obstante, em 1978, a Ford iniciou um recall fornecendo um escudo protetor de plástico para ser instalado entre o tanque de combustível e os parafusos do diferencial, além de novo duto de abastecimento do tanque de combustível.

Pelo contrário: Schwartz disse que o carro não era mais propenso a se incendiar do que outros carros da época, e que as suas taxas de mortalidade foram menores do que em alguns de seus concorrentes importados, e que parte do suposto memorando interno da Ford era, na verdade, um documento com base em regulamentos da NHTSA sobre o valor de uma vida humana - ao invés de um documento que continha uma avaliação da potencial responsabilidade jurídica da Ford.

Entretanto, o que é mito ou realidade nesse caso? Será que Schwartz soube trazer luz à escuridão desse caso, fazendo justiça ainda que tardia; ou foi apenas um blefe por parte dele? Não me cabe julgar. Mas você pode deixar seu comentário logo abaixo!